quarta-feira, 24 de março de 2010

“Chico da Matilde”: Alguns aspectos de sua vida pessoal e profissional.



Francisco Alberto Júnior.

Este texto se trata de um pequeno fragmento de uma pesquisa biográfica realizada sobre Francisco José do Nascimento, o “Dragão do Mar”. Também conhecido como “Chico da Matilde” o Francisco José do Nascimento o qual, teve participação destacável durante o processo de libertação dos escravos no Ceará. Não podemos afirmar que ele foi o personagem principal dessa trama, mas dentro de um movimento de cunho liberal surgido no seio das elites ligadas ao liberalismo e embebidas com as novas idéias que chegavam da Europa durante a Bélle Époqe no Brasil e em especifico no Ceará, temos um personagem saído das camadas populares. Como diz Edmar Morel no seu trabalho biográfico sobre “Chico da Matilde, de 1949, tratava-se de um homem do povo.

O jangadeiro Francisco José do Nascimento nasceu no dia 15 de abril de 1839 em Canoa Quebrada, município de Aracati. Seu contato com o mar vem desde a terna idade, pois seu pai, Manuel do Nascimento, tinha a mesma profissão que o filho viria a exercer quando se tornasse sólido o suficiente para cuidar da própria vida. Teve uma infância humilde no Litoral Leste do Ceará.

Sobre Aracati, Edmar Morel fornece alguns dados sobre a origem e a família de Francisco José do Nascimento. Baseado na narrativa o autor relata um caso ocorrido com Chico da Matilde ainda quando criança, no qual quase perde a vida. Assim segundo o autor:


“O filhinho do pescador Manuel do Nascimento e de Matilde Maria da Conceição, residentes em “Canoa Quebrada” teve uma espinha atravessada na garganta e foi desenganado. Os seus pais se valeram de N. S. do Rosário e tão grave era o estado do recém – nascido, que chegaram a rezar pela sua alma inocente...”


No Ceará é bastante comum que se atribua o apelido do filho associando-o ao de sua progenitora. Frâncico José do Nascimento não fugiu a esta regra. Como já fora afirmado anteriormente o tópico sobre Aracati traz consigo algumas informações pessoas sobre o “Dragão do Mar”. O ano de seu nascimento – 1839 – e sua filiação – Manuel do Nascimento e Matilde Maria da Conceição. Ou seja, o pseudônimo “Chico da Matilde” vem desta associação de seu nome com o de sua mãe.


A entrada de “Chico da Matilde” no mundo do trabalho tem início ainda na sua infância. Essa inserção tem um começo relacionado a um episódio onde sua mãe também é personagem, pois ela acabara se envolvendo num atrito com um magistrado que havia acabado de chegar em Aracati. Nesse contexto, Francisco José do Nascimento acabou se tornando num homem do mar, chegando a trabalhar em terra, na cidade de Fortaleza, mas acabou mesmo se consolidando como um jangadeiro como seu pai e seu avô.

A chegada de um juiz em Aracati, por volta de 1848, foi um fato que marcou a infância de “Chico da Matilde”. Esse magistrado ao ver o filho de D. Matilde brincando pelas ruas de Aracati chamou-o para trabalhar em sua casa. A questão é que o magistrado tinha “problemas” matrimoniais condenáveis para os princípios morais difundidos na época. O tal juiz, segundo o autor, “abandonou a família para viver com uma senhora que fizera o mesmo com o marido” .
D Matilde, sabendo da história, foi tomar satisfações na casa do magistrado. Com base nas memórias de ‘Chico da Matilde”, o autor expõe o acontecido:


“À noite, minha mãe deixou uma vizinha cuidando da casa e foi ao sobrado onde estava morando o juiz. (...) minha mãe era alta, forte e muito morena, sendo, porém, mais clara que meu pai. O seu nome era Maria Matilde da Conceição, e por isso fiquei conhecido pelo resto da vida como “Chico da Matilde’. Como “Chico da Matilde fui tratado pelo José do Patrocínio e até pelos jornais da Corte... Quando minha mãe soube que o Juiz vivia com uma rapariga gritou em voz alta – Sou preta, mas não tenho um filho para servir a uma rapariga!”.


O episódio que envolveu a mãe de Francisco José do Nascimento gerou problemas entre ela e a polícia local. Apesar do fato de D Matilde tinha boas relações de amizade com membros da polícia local, não impediu que a mãe do “Dragão do Mar” fosse obrigada a se retirar de sua terra natal. Sobre a situação o autor o autor expõe o seguinte:


“Diante do fato que foi público no lugarejo, o cabo do destacamento policial, amigo da rendeira, acha que a família precisa sair de Aracati. Mas, D. Matilde não tem recursos para fazer uma viagem e não aceita o conselho” .


O resultado foi que “Chico da Matilde” acabou embarcando no barco “Tubarão”, de propriedade do Comendador português José Raimundo de Carvalho. É a partir desse momento que começa a se forjar uma intensa relação entre Francisco José do Nascimento e o mar. Uma relação também profissional. Esse fato, colocado em suas memórias foi transcrito por Edmar Morel. Segundo o autor, “na minha primeira viagem enjoei muito, e passei muitos dias caído no porão. A bordo fazia o papel de menino de recado” . O veleiro em questão fazia a rota Natal, Recife, Fortaleza e transportava mercadoria. Lá, “Chico da Matilde” fez amigos e recebia como remuneração uma pataca por semana.

Aos vinte anos de idade Francisco José do Nascimento tenta trabalhar num trapiche em Fortaleza sob a orientação do engenheiro francês Pierre Florent Berthol. Porém, logo absorveu a vida no mar como sendo a sua. “Chico da Matilde era agora um homem do mar. “O mar é a sua vida, é um pedaço da vida dos antepassados” .

No ano de 1859, Francisco do Nascimento embarca como tripulante num barco que faz a rota Maranhão – Fortaleza. Nessa viagem, conheceu o negro Luis Aracati, um dos passageiros da barca Laura Segunda. “Cuja história é uma revolta sangrenta e da qual é chefe o preto Constantino, escravo do próprio armador” .

Por volta de 1870 Francisco José do Nascimento se estabelece definitivamente em Fortaleza, casou-se e constituiu família, além de ingressar na sociedade São Vicente de Paula.


“Nascimento é agora da Sociedade São Vicente de Paula e a sua presença nas novenas de Maria é imprescindível. Casado com D Joaquina Francisca, moça de condições modestas, que conhecera em Aracaty, o primeiro compra duas jangadas para auxiliar no sustento da pequena família, composta pela mulher e uma filha” .



Em 1874 “Chico da Matilde” foi nomeado pelo Capitão Tenente João Joaquim Rodrigues Pinto como 2º prático, função a qual, era por demais devotado. Porém, sua devoção religiosa fez com que vivesse os momentos da grande seca de 1877 como auxiliar nos socorros às vítimas do flagelo, como explica Edmar Morel:


“Nascimento, levado pelos seus sentimentos religiosos, auxilia o serviço de socorro às vítimas de 77 à 79, a maior calamidade do Ceará e que mata de fome e de peste mais de um quarto da sua população” .



O episódio conhecido como “O Massacre da Laura” ocorreu em 1839, quando revoltados com as péssimas condições de alimentação e os excessivos castigos físicos, os escravos do Laura II, liderados pelo escravo Constantino se rebelaram, tomando o barco e assassinaram o resto da tripulação. O fato ocorreu no litoral entre Fortaleza e Aquiraz. Os amotinados foram presos, julgados e condenados. Constantino foi enforcado na Praça dos Mártires em outubro de 1839.


A influência do episódio do “Laura II” foi de grande importância para a formação da idéia abolicionista em Francisco José do Nascimento. A partir de então o olhar de “Chico da Matilde” em relação à escravidão começa a tomar um conteúdo mais crítico. Algumas décadas depois viria o resultado, expresso na sua participação nas ações diretas ao lado dos grupos de abolicionistas mais radicais que haviam em Fortaleza na segunda metade do século XIX, estes conhecidos como abolicionistas carbonários.


Fonte: MOREL, Edmar. Dragão do Mar. 1949.

Um comentário:

  1. Nossa, não sabia que ele tinha sido importante assim... muito bom professor :D

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